SOMBRA E LUZ

“O medo cega a gente”. A frase, que já faz parte dos ditos populares, ilustra o poder que uma sensação tem de paralisar quando se quer seguir, de amordaçar quando se quer gritar, de fazer sair de dentro do corpo um suor frio, quando o calor do verão é quem dita as regras do lado de fora. O medo dá calafrio, arrasta as noites em claro e se faz em nó na garganta. Ele é um monstro que habita em nós.

Mente descaradamente quem diz que não sente ou nunca sentiu medo. Quando não é uma patologia, em nível que não provoque pânico em quem o sente, ele é necessário, pois é mediador, ajuda na análise para se seguir o melhor caminho. Dessa forma, o medo é sombra e luz. É o meio para se deixar a caverna escura até a clareza da razão. Indesejada, a sensação do medo é fundamental para a antecipação dos perigos, mas, injustamente, carrega consigo a bandeira do defeito; os louros da virtude ficam para a coragem dos destemidos.

Assim é o medo: pode ser incontrolável, pode ser dominador, mas é sempre ditador da insegurança. Por vezes é um vulcão inativo. Mas está a postos e pode entrar em erupção a qualquer momento. Sensação ruim, ele é o anteparo para o precipício. Como a febre que denuncia algo errado no corpo, o medo é o alerta para não avançar a linha vermelha da velocidade, para não se expor a lugares ermos e escuros, para usar a máscara ao sair de casa. Nas camadas das sensações, ele é uma faixa onde ninguém quer circular.

Ao destravar a chave que represa o medo, são liberados hormônios como a adrenalina, que causa aceleração dos batimentos cardíacos, e o cortisol, responsável pela perda momentânea da memória, o chamado “branco”. Uma vez livre, o medo pode assumir duas funções: espada em punho, a missão é derrotá-lo; escudo em posição, a tarefa é defender-se das ameaças com sua ajuda.

Há também aquele medo fabricado por terceiros, que se constitui em poderoso instrumento de dominação. Com o poder nas mãos, o opressor mantém a submissão do oprimido sob seu domínio. Essa situação remete-nos à imagem angustiante do personagem Gregor Samsa, protagonista da obra “A Metamorfose”, do escritor tcheco Franz Kafka, publicada em 1915.

Oprimido pelo pai, Gregor se vê tão diminuído pela autoritária figura paterna, que um dia acorda e se vê em um corpo de inseto. A transformação do personagem tem várias interpretações, mas uma bem importante é a de como o medo consegue reduzi-lo a ponto de sentir-se em forma de uma barata.

Com qual régua medir o medo sentido pelo personagem? Não há régua. Imagina-se que seja maior que ele. A diversidade e intensidade dos medos são proporcionais à própria diversidade humana. O certo é que ninguém quer tê-lo por perto. Ele é um hóspede contumaz indesejado. A vontade é que vá embora logo e para sempre.

Difícil enxergar algo de bom neste sentido, ainda que, dependendo da ocasião, ele nos salve de muitas situações que poderiam ser graves, sobretudo aquelas que põem a vida em risco.

Para o bem e para o mal, a sensação tão incômoda provocada pelo medo se coloca como um desafio, como uma luta que se trava em quem ele tenta aprisionar. Como ferramenta de dominação de outrem, ele é contramão na via dupla e escura. E do outro lado da rua tem gente. Gente que existe para luzir, mas que precisa assumir-se sol, porque em campo iluminado, sombra e escuro sempre sucumbem aos raios intensos de luz.

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SILENE SANTOS

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), possui pós-graduação em Globalização e Cultura pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Possui 23 anos de experiência em Comunicação Social e atua no Atendimento às contas públicas da Área Comunicação.

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