CENAS BANAIS DO CODITIANO

Há poucos dias, no fim do ano passado, a imprensa registrou a
morte de um morador de rua dentro de uma padaria na cidade do Rio de Janeiro.
Foi morrer justamente no famoso bairro de Ipanema. Nada de surpresa num
acontecimento como este, ainda que nessas condições morra muito mais gente em
bairros da Baixada Fluminense, o normal é que pessoas morram a qualquer hora e
em qualquer lugar mesmo. O inumano, para dizer o mínimo, foi o dono da padaria
continuar com o estabelecimento aberto e os clientes continuarem com suas
ações, como se ali, coberto por saco preto de lixo, não estivesse coisa alguma.

– Desce um café com leite e um pão com manteiga na chapa, avisou o atendente.

– Pra mim um misto quente e um café puro, pediu o jovem faminto.

– Eu quero um lanche natural, com queijo branco, e um suco detox, solicitou a moça que acabara de fazer caminhada na orla.

Os diálogos são ficção, o real mesmo é que chegamos em 2021 sem compaixão, sem a tão propalada empatia, sem a menor noção de humanidade. Se a morte tivesse acontecido no trânsito caberia aqui o famoso refrão de Chico Buarque na música Construção: “morreu na contramão atrapalhando o tráfego”. Mas foi na padaria e sem ao menos atrapalhar a venda do pão nosso de cada dia e nem o cafezinho de ninguém. Morte com zero repercussão na vida de quem quer que seja.

Invisível como o corpo do brasileiro morto na padaria de Ipanema
são os mais de 222 mil que vivem em situação de rua no Brasil, segundo pesquisa
do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) divulgada no ano passado.
São 222 mil pessoas expostas a todo tipo de violência e doenças, sobretudo à
covid-19. Para elas não existiu e não existe o “fique em casa”, simplesmente
porque não há casa.

Quando se fala em pessoas vivendo em situação de rua, é preciso
ir até a raiz do problema, que é a falta de uma política pública robusta para a
área da Habitação. O déficit habitacional no país é crônico, se aproxima dos 8
milhões de moradias. É muita família sem teto digno, sobrevivendo à beira de
córregos, em áreas de riscos, de mananciais, à margem das rodovias, na
contramão.

Na padaria ou na rua, quando se imagina que o descaso pela vida
já atingiu o ápice, eis que uma cena do cotidiano vem para concorrer a mais um
Prêmio Guinness de Banalização da Morte. O anônimo caiu e morreu, nada a fazer.
Mas o dono da padaria poderia ter interditado o estabelecimento comercial, ter
aberto mão do lucro do dia, ao invés de colocar cadeiras para que os clientes
não tropeçassem no corpo. Para o problema do empecilho que atrapalharia o
público, o comerciante resolveu rapidamente com atitude repugnante.

Enfim alcançamos o ano 2021 e, até aqui, neste longínquo caminho, nunca conseguimos assumir aquele projeto de “amar o próximo como a ti mesmo”. Não chegamos nem perto disso, estamos sim a anos luz dele. Quem sabe, em mais dois séculos seja possível, com as sequências de novas gerações, iniciar um doce plano que tenha como prioridade as pessoas. Por enquanto, desce um café extra forte e amargo, que é para despertar e alertar para o amargor que anda a tomar assento nos balcões e mesas das padarias de cidades povoadas por pessoas nada maravilhosas em todo o país.

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SILENE SANTOS

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), possui pós-graduação em Globalização e Cultura pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Possui 23 anos de experiência em Comunicação Social e atua no Atendimento às contas públicas da Área Comunicação.

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