A LÍNGUA BRASILEIRA

Se tem uma coisa que os povos prezam e defendem na vida é o uso de seus idiomas. Instrumento de dominação no
passado, com o intento das colonizações, e de opressão em guerras não muito
distantes, a imposição da língua do vencedor sobre o vencido sempre foi uma das
primeiras ações a serem tomadas no ato da anexação de territórios. E, entre as
muitas características que a língua assume, uma delas é ser instrumento de
poder.

Mas deixemos de lado as queixas contra nossos “mui amigos irmãos patrícios” que aqui chegaram em 1532 para
catequizar índios, desbravar terras, explorar riquezas – e haja ouro para
saciar tanta sanha – e conhecer as índias brasileiras em sentido bíblico.
Deixemos tudo isso para outra ocasião. Vamos nos ater à riqueza da Língua
Portuguesa, que deveria ser chamada de Língua Brasileira, ora pois!

O que é a língua senão um organismo
vivo, que se reveste do novo e se movimenta por entre as épocas? É tão
democrática que se deixa criar num recriar-se sem fim e, em constante uso, cai
em desuso e ressurge num criar-se de novo. É tão desapegada de si mesma que se
entrega por completo aos seus usuários, locutores e interlocutores, para que se
virem e construam a melhor forma de comunicação e sejam livres para reinventá-la.
A língua é criatividade.

No Brasil, a riqueza de significados que as palavras e expressões nos proporcionam é realmente de “tirar o chapéu”, só para usar uma expressão que, dita ao pé da letra, não tem nada ver com o sentido para o qual foi aplicada. O estrangeiro mais desavisado, por exemplo,
procuraria logo uma cabeça para saber de onde o chapéu estaria sendo tirado. E
como explicar para esse mesmo gringo que a manga da blusa dele está rasgada e
que, por isso, alguém pode mangar dele? A língua é sinônima, parônima,
homônima, heterônima, é signo e significado. A língua é sentido oculto, é
intrínseca, é entrelinhas, é subliminar, é um querer dizer sem falar.

Idioma usado oficialmente em
Portugal, Brasil, Angola, Moçambique, Guiné-Bissau, Cabo Verde, São Tomé e
Príncipe eTimor Leste, a Língua Portuguesa é sotaque, é dialeto, é gueto, é
tribo, é comunidade, é estilo, é tipo. Palavra formal, de baixo calão, é
palavrão. É funk, baião, MPB, sertanejo, samba e axé. “É pau, é pedra, é o fim
do caminho” (Águas de Março, de Tom Jobim). A língua é canção e forma de
expressão.

No cordel e no cartum, no poema,
folhetim e cinema, no teatro e no retrato, a língua é visão de seu criador, é
licença poética, compreensão, um código sem fim. É enigma pra decifração. A
língua é cultura popular e erudita. É interação, reunião, socialização. É pedir
o pão, é doação e comunhão.

Com o terço nas mãos, a língua é
oração e profunda devoção; profissão de fé, pagamento de promessa… “é
promessa de vida no meu coração”, num caminhar quilômetros a pé. Padroeira do
Brasil. Peregrinação. Missa, culto, ritual, oferenda, despacho. Respeito à
religião.

A língua é futebol campeão.
Corinthians, Palmeiras, Grêmio, Flamengo, Vasco, Ponte Preta, Avaí. Lençol,
chapéu, gol de bicicleta, de placa, de letra; é falta, pênalti. E, se garfar, é
juiz ladrão. 7×1 é decepção. A língua é classificação: primeira, segunda,
terceira divisão. Seleção é torcida, é todo mundo junto, diversão e paixão.
Brasil Pentacampeão. Racismo não! 

De tão usada a serviço da comunicação,
a língua é gíria, é neologismo, é variedade, regionalismo, estrangeirismo,
hiato e junção, é jeito, é jeitinho brasileiro. Ela é invenção.

Drummond de Andrade, Raquel de
Queiroz, Cora Coralina, Graciliano Ramos, Guimarães Rosa, Ariano Suassuna e
Mário Quintana. É Clarice Lispector, rendendo seu amor à língua em A Descoberta
do Mundo. “A língua portuguesa é um verdadeiro desafio para quem escreve.
Sobretudo para quem escreve tirando das coisas e das pessoas a primeira capa de
superficialismo”. (…) “Se eu fosse muda, e também não pudesse escrever, e me
perguntassem a que língua eu queria pertencer, eu diria: inglês, que é preciso
e belo. Mas como não nasci muda e pude escrever, tornou-se absolutamente claro
para mim que eu queria mesmo era escrever em português. Eu até queria não ter
aprendido outras línguas: só para que a minha abordagem do português fosse
virgem e límpida.”

A língua é conto, verso e prosa,
frases, períodos, páginas e livros. A língua é um alento para a solidão. É
viajar sem sair do lugar, personagem-leitor. A língua é ficção, ilusão,
imaginação.

Pergaminho, papiro, carta, bilhete,
correio eletrônico, “WhatsApp”, anotação. A língua é rápida, direta. É
tecnologia, inovação e evolução.

Letras, Literatura, redação,
interpretação e tradução. A língua é padrão, fusão de prefixos e sufixos,
gregos e latinos. É professor, educador, tradutor. É ganha pão, profissão.

É aliteração, é tanto “s”, “ss”, “c”,
“sc”, “xc”: tudo com o mesmo som. Mas é preciso atenção. E quem explica
isso para um alemão?

A língua é palavra, fonema, som,
sinais, linguagem verbal e em libras. É verbo de dizer: é falar, contar,
afirmar, declarar, ordenar, perguntar, exclamar, pedir, concordar. A língua é
meio de comunicação. É o começo e o fim.

A língua é pátria, é orgulho, é hino
ao Brasil. É mãe. É pátria-mãe. É o princípio, é descoberta. É mã, é mãe, é
mamãe. É alfabetização na idade certa. Educação gratuita e de qualidade. Grito
preso na garganta, resistência, manifestação. É direito garantido na
Constituição.

A língua é sentidos, é duplo sentido.
É encontro vocálico e de bocas. Beijo de língua, céu da boca. Prazer no plural,
é fala, mas quando a boca cala, é suspiro, gemido, palavras carinhosas e
obscenas ao pé do ouvido. É língua macia. É gozo e banho. É banho de gato, num
lamber-se delicado e elástico. A língua é erótica. Atração, sedução e
satisfação. Se for só sexo é prazer, com amor é sentimento bom.

É palato, gosto insosso, amargo e
doce. A língua é fundamental para a mastigação. Ela é a mistura da comida, sustento,
degustação, saciação. É língua de sogra na festa infantil. Ela é comemoração e
celebração.

De tão diversa que é, se adapta a
lugares e situações, mas sofre retaliação, quando é a linguagem das favelas,
palafitas, moradia à beira do córrego prestes à destruição, ruas e praças
esquecidas e botequins repletos de iletrados, analfabetos, apartados,
excluídos. A língua é mono, di, tri, polissílaba. É separação de sílabas,
separação de classes sociais. Ela é também segregação, discriminação.

 

Mas é muito mais inclusão. A língua
sou eu, és tu, ele, nós, vós, eles. É conjugação. É pronome. É minha, tua,
delas e deles. É gênero, número e grau. Homem, mulher e LGBTQI+; gordo e magro;
índio, preto, branco, amarelo e pardo, miscigenação. A língua é rica, é de ricos,
pobres, miseráveis. Mas a língua é mulher. É afetuosa e atenção aconchegante,
palavra amiga. É firme, forte, empoderada, cheia de sororidade. A língua é
ocupar espaços, sentar-se à mesa. Ter vez, voz, direito ao voto e poder de
decisão. É desenvolvimento, crescimento e formação.

Reverenciada no poema “Última flor de
Lácio, inculta e bela”, de Olavo Bilac (1865/1918), é matéria-prima para
poetas, jornalistas, escritores e artistas. É alimento para a alma.

“É a um tempo esplendor e sepultura (…)
Amo-te assim, desconhecida e
obscura”.  

A língua é estudo, é sintaxe,
semântica, análise, gramática e linguística. É um tema sem fim, porque é
infinita de significação. 

Mas escrever é labuta, é trabalho
difícil, duro, árduo. A construção de um texto envolve escolhas do início ao
fim. Parir um único trecho é adicionar e excluir palavras. Desejo, concepção,
aborto de ideias, sofrimento. É autor imerso em sopa de letrinhas,
caça-palavras. Metáfora, palavra solta feito dança de bailarina, é construção
civil, dissertação feita de tijolo por tijolo. Texto finalizado, deleite do
leitor.

Se for só blá, blá, blá o texto se
constitui em palavras ao vento, letra morta, perda de tempo.

A língua é também explicação,
diálogo, conversa, entendimento. Poder de persuasão. É acordo ortográfico. É
país irmão, é perdão, mas sem esquecer a exploração.

A língua está em tudo, o tempo todo,
mesmo o sujeito sendo surdo-mudo. Ela mora no pensamento, é concentração e
meditação. Fica lá burilando, formulando, elaborando, projetando. A língua é
gerúndio, está sempre em ação. É verbo ser. Ela é o ponto final. Só a morte a
detém, mas ela continua em alguém. A língua é vida eterna. Amém!

A língua é métrica, é papo pra mais
de metro, língua solta… Mas como diria Odorico Paraguaçu, personagem criado
por Dias Gomes nos anos 70, para a novela O Bem Amado, e imortalizado pelo ator
Paulo Gracindo (1911/1995): “vamos botar de lado os entretantos e partir logo
pros finalmente”.

Não antes de dizer que a língua é
patrimônio, memória, legado de gerações; é a nossa História. É daqui, é
tupi-guarani, é pau-brasil. É país independente, republicano, soberano, livre
de qualquer dominação. A língua é amor a ela. Nossa aquarela branca, azul,
verde e amarela. A língua? A Língua é Bra-si-lei-ra.

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SILENE SANTOS

Jornalista formada pela Pontifícia Universidade Católica (PUC/SP), possui pós-graduação em Globalização e Cultura pela Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo. Possui 23 anos de experiência em Comunicação Social e atua no Atendimento às contas públicas da Área Comunicação.

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