PASSAM AS ESTAÇÕES

Sua preferida era a Sé. Por um motivo simples: era a única estação onde podia sair do vagão, subir a escada rolante, descer do outro lado e pegar o trem de volta, sem precisar pagar outra passagem.

– Próxima estação: Conceição.
Assim vivia seus dias: logo cedo, pegava o metrô, cheio àquela hora, ia em 30 minutos até a Sé, e então invertia o trajeto; um bate-volta permanente. Nos horários de menor pico, arriscava uma ou outra baldeação, outra linha, poucas variações de ambiente. Mas sem jamais subir às estações, sair à rua, nunca enfrentar o tempo lá fora ou reencontrar a cidade. A vida era menos ofensiva sem luz natural.

– São Judas.
Algum relógio seria preciso encarar. Em algum momento teria de enfrentar alguma esquina. Ele sabia. Mas não agora. Bem disse o Chico: o amor não tem pressa, ele pode esperar.

– Saúde.
A declaração do imposto, a consulta no dentista, os casos mal resolvidos só existiam nos pensamentos, obrigações da vida lá de cima, aqui não eram existências concretas. Às vezes, notícias do outro mundo chegavam por um jornal que alguém lia ao seu lado. Em outras, num diálogo captado entre dois passageiros ou numa conversa pelo celular.

– Praça da Árvore.
Árvore. É verdade, isso fazia falta. Em especial agora, quando ipês e jacarandás florescem. Mas não se pode ter tudo: nada substituía a sensação de que ali ele era intocável, raramente seria perturbado. Um passageiro, igual a todos, um anônimo camuflado na lotação. E do melhor tipo: o silencioso, absorto em alguma leitura, sem fazer volume ou caso. Ali, tudo era limpo, obedecia a uma ordem precisa, e, diferente dele mesmo, parecia seguir sempre em frente.

– Santa Cruz.
Quando estava sentado, cedia seu lugar às grávidas e incapacitados. Aos idosos não, era quase um deles. Em dias de excepcional humor, até puxava uma prosa. No mais, seu negócio mesmo era ler: devorava um livro por semana. O barulho não o incomodava, o turbilhão não o desconcentrava. E já havia decorado todos os avisos sonoros, advertências e anúncios, podia ignorá-los.

– Vila Mariana.
Era implacável com os vendedores de balas, capas para celular ou os que exibiam um breve show (constrangedores, quase sempre) em troca de alguns trocados. Nunca colaborava, nunca dava dinheiro: para ele, era uma perturbação de sua paz, sua vida, sua monotonia (como queiram).

– Ana Rosa.
Tudo o que precisava levar era um livro e um sanduichinho para o almoço. Não precisava casaco, a roupa podia ser velha. Não precisava ter pressa ou se condoer do próximo. Jabaquara, Sé, Sé, Jabaquara. Ao voltar pra casa, tomaria um leite, e cama.

– Paraíso.
Certa vez, já se sentara ao seu lado uma celebridade; já vira um homem tão alto que precisava se abaixar para passar pela porta; dois repentistas; um nazista convicto de suástica na camiseta e tudo; e sem dúvida conhecera a mulher mais feia do mundo. Teve uma vez gozada: uma moça lhe perguntou as horas e ele reconheceu em sua voz a locutora do alto-falante.

– Vergueiro.
Algumas pessoas entram de guarda-chuva, outras estão francamente molhadas. Os adultos resmungam, os jovens sorriem. Sente-se superior, a chuva nunca o atinge, só lamenta que a água que deles escorre molhe seu chão, o piso de sua sala, seu quarto e cozinha. Essa gente não respeita nada.

– São Joaquim.
Já calculou a velocidade em que deve andar para nenhuma porta fechar na sua cara. Já é íntimo de um segurança meio gordinho e que não impõe a menor autoridade. Sabe que há um lixo para jogar as sobras do lanche a 40 metros do desembarque.

– Liberdade.
A liberdade de ir e vir, num entendimento muito particular. Um cochilo, mais 10 páginas. As propagandas projetadas nas paredes do túnel. Dar-se conta do calendário só nos trens esvaziados e menos constantes do domingo. Pensar em todas as providências que deixará de tomar.

– Próxima estação: Sé. Desembarque pelo lado esquerdo do trem.
Já sabia qual vagão parava mais próximo da escada rolante. Agora, bastava uma corridinha para ser o primeirão a subir. E recomeçar a viagem na direção contrária. E recomeçar o dia a dia. E não recomeçar a vida.

 

Autor:
Cássio Zanatta é cronista. Como publicitário, foi redator, diretor de criação e vice-presidente de criação, e voltou a fazer o que sabe (ou acha que sabe): redatar.

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