SOBRE O MEDO DO LOBO MAU

É difícil andar pela
floresta. Na mata não há esquina, cruzamento, orelhão, muro, nada que marque o
caminho. Nem uma casinha caiada com janelas encarnadas que nos indique
convergir à esquerda ou um mata-burro que nos direcione à direita. Na floresta
tropical então, não tem caminho reto. É tudo aberto e ao mesmo tempo fechado,
com tanta luz quanto sombra, com ar puro para alguns e rarefeito para outros.

A floresta é, por si só e
ironicamente, inóspita para o ser humano que esqueceu a sua ancestralidade
animal e aterrorizadora para aqueles que se integraram às amarras sociais da
racionalidade.

Há sempre nela um terrível
lobo mau. Que de todos talvez seja o mal que menos nos impeça de avançar,
sociologicamente falando é claro. Já que aparentemente ele nunca passou de uma
fake news sem muitos adeptos. Diferentemente da chapeuzinho vermelho. Essa sim
é bem real. Provocativa, libertária e sem nenhuma inclinação para a adequação,
insistindo em atravessar a floresta, em abrir caminhos, alterar a paisagem a
cada pisada e incitar mais gente a percorrer tais mudanças sem receio.

Temerário esse povinho que
não tem medo da floresta. De se embrenhar por ela e, assim, fazê-la avançar
também. Ao contrário. Até gostam daquele mafuá filosófico. É pau, pedra, folhas
sem noção de proporcionalidade e hierarquia. Com flores excêntricas
dependuradas em árvores expondo desavergonhadamente suas raízes. Não dá mesmo
para confiar em um lugar onde algumas plantas dispensem a segurança e a
tradição de um substrato.

Assim como há mesmo que se
desconfiar de gente sem receio de deixar pegadas, de quebrar gravetos, amassar
algumas folhas para que fertilizem o solo e outras plantas, que não as mesmas,
nasçam. Abrir novos caminhos, menos óbvios, mais generosos, por onde todos
passem, um a um ou em hordas. Uma picada que leve para o dia seguinte. Para
clareiras melhores de se estar.

Não se cruza uma floresta
sem algum medo, é bem verdade. Mas é igualmente fato que não se pode permitir
que o medo limite seu renovar.

Lógico que dá medo cruzar
com uma espécie nunca antes catalogada. Dá medo se deparar com o novo que
existe há vários séculos. Dá medo aceitar aquilo que se desconhece para se
avançar com legitimidade.

A diversidade de uma
floresta dá medo. A liberdade de existir também dá sempre muito medo. A de
coexistir então, dá paúra.

Por isso muitos têm medo de
um sistema não binário. Um lugar com toda a melanina, e a ausência dela, à flor
da pele. Um mato igual para todos. Sem marcas e logotipos. Sem rótulos e
códigos de barra. Sem preço. Para alguns dá muito medo um mundo de graça.
Acessível demais. Sem reservas de mercado. Enquanto que, receio mesmo,
deveríamos ter de sobreviver em um mundinho pasteurizado, sem graça.

Dá muito medo avançar para
um lugar onde palavras nascem e morrem. Expressões podem e devem se aposentar.
Onde a normalidade que se vê precisa sucumbir para a heterogeneidade ascender
justamente.

Dá mais medo ainda avançar
na floresta nus. Sem nada que nos defina, limite, categorize ou nos torne
moralmente aceitáveis. Pelado por fora e por dentro.

E porque nos permitimos ter
medo, que não são poucos e nem são tolos os muitos caçadores que fomentam o
temor coletivo, apenas para manter seu mundinho tal e qual lhes agrada a alma
pequena e lhes convém o enorme gibão. E quando a farsa da caçada lhes é
enfadonha, divertem-se a regurgitar um mundo viscoso, trêmulo e drenante onde,
ainda que dentro da floresta, a esperança não verdeje para os que temem tanto
quanto para os destemidos

Por isso, para cruzar a
floresta e deixar as marcas que ela tanto necessita para se renovar, é preciso
reconhecer quais medos nos são próprios e quais nos são impostos. Feito isso,
enfrentá-los já nem será mais necessário. A própria floresta os dissipará.

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