ENTREI NO GRUPO DE EX ALUNOS DO COLÉGIO. E FOI BIZARRO.

O ano começou e me propus a fazer um experimento sociológico que nenhum comitê de
ética iria aprovar. Afinal, esse experimento pode dar muito errado ou muito
certo.

A ideia é frequentar um pequeno grupo de pessoas que já se conhecem mas que não possuem
uma relação íntima no dia a dia, catalogar as respostas e analisar o que pensam
a respeito da pandemia, da ciência, religião, política e, principalmente,
questões sociais sobre racismo, homofobia e desigualdade social.Para
reduzir o viés da espontaneidade não serão feitas perguntas específicas, os
estímulos virão dos conteúdos publicados. Com esse experimento eu espero que
cada publicação sobre esses assuntos tenham algum tipo de resposta. Serão oito
publicações específicas sobre cada um dos temas.

Enfim, explicada uma parte da metodologia, vamos ao que interessa.

A história começa no ano passado.

Desde outubro de 2020 me chamam para entrar no grupo “Ex-Alunos do 3º E”. A
princípio fui contra, pois não existe nenhum vínculo entre quem somos hoje e
quem éramos na adolescência. Mas, após muita insistência, pensei que poderia
ser interessante se pudesse traçar um paralelo sociológico de como pensam os
atuais homens de meia idade e correlacionar com dados de outras pesquisas.

Entrei no grupo e, se tudo der certo, devo ter os dados coletados e analisados até o
fim de 2021.

O grupo foi criado no dia 13 de janeiro e este texto está sendo escrito no dia 08 de
fevereiro. Em menos de um mês já presenciei 135 piadas homofóbicas e 278
atitudes machistas objetificando a mulher. Isso porque eu ainda não publiquei
nenhum conteúdo do projeto.

No grupo temos nove homens de meia idade. Dois advogados, três engenheiros, um motorista
de Uber, um corretor de imóveis, um músico e eu.O fato que mais me
impressionou aconteceu com um conteúdo de fotos íntimas de uma mulher
desconhecida. Alertei que essa atitude pode ser considerada crime, segundo a
Lei 13.718/2018, e que era melhor rever os conteúdos a serem postados no
grupo. Até sugeri criar alguns critérios para não entrarmos no âmbito criminal, mas fui bem criticado. A justificativa foi que
homens sempre fizeram isso e continuarão fazendo e não temos que ficar de
mimimi. Afinal, se a mulher se deixou filmar é porque ela queria e sabia das
consequências. Tentei fazer uma analogia se a situação acontecesse com as
filhas deles, afinal todos eles já são pais. A resposta que obtive foi que suas
filhas nunca fariam uma coisa dessas, pois elas têm uma “boa
educação”.

Aqui entra minha primeira impressão sobre os homens de meia idade deste grupo (que
pode ser um mini retrato de muitos homens da sociedade). O raciocínio que
prevalece é de que existe um modelo de homem a ser
seguido, que fala, principalmente, sobre mulheres, bebidas, futebol e
churrasco. Todos esses temas envolvem, de alguma forma, uma tensão sexual
escondida. Quando abordam temas como mulheres e bebidas existe uma busca
gigantesca por afirmação deste modelo de homem viril. Quando o assunto é
futebol ou churrasco o contexto sempre acaba com provocações e
“brincadeiras” homofóbicas. Este grupo foi reunido com o objetivo de
relembrar momentos divertidos do passado, porém quase todos os momentos que
relembramos possuem essa busca por afirmação do modelo masculino ideal e essa
tensão sexual escondida.

O que vi até agora confirma o título desse texto. Mas também, pode servir mesmo como um experimento que comprove o que já sabemos, mesmo não querendo acreditar: o
quanto a sociedade é machista e homofóbica.

Se tudo der certo, publicarei aqui o resultado dessa experiência.

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RICARDO MARUO

Diretor de planejamento estratégico digital da Área Comunicação. Atua a mais de 20 anos no mercado digital, principalmente nas áreas de inovação, data science e novos negócios. Palestrante profissional, professor na PUC-SP, especialista em psicologia comportamental e criador do projeto Mulheres Digitais.

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