Celia Araújo

O PSICOPATA ASSASSINO

O melhor em assistir filme é poder se envolver com a história. Sentir frio quando o filme se passa no pólo norte. Morrer de calor e sede se for no deserto, mesmo que as condições climáticas “reais” sejam totalmente opostas.

Tem graça assistir filme de terror sem sentir medo?

Foi com essa expectativa que me deixei envolver por um filme que tinha um roteiro clichê: aquele em que a moça mora sozinha e tem um psicopata a espioando, esperando o momento oportuno para entrar em sua casa e assassiná-la à facadas como em Psicose de Alfred Hitchcock. Além daquela musiquinha de suspense que mexe com nossos nervos. Bem, Psicose é um clássico e este filme que eu assistia não tinha nada de original, mas quando a gente quer entrar no clima é um pulinho.

A moça mora sozinha: – Xí, Eu moro sozinha! A moça está sendo espionada:- Xí, minha janela está meio entreaberta e lá fora está escuro. O assassino conseguiu entrar em casa sem ela perceber. Isso não aconteceria comigo, pois tenho um cachorro: um lindo e fiel pastor alemão. Ele teria que matá-lo à facadas antes de chegar até a mim. Não seria nada fácil.

Assim que o pensamento foi concluído meu cachorro começou a ganir agudamente de dor. Caramba! – Caim, caim… Pegaram meu cachorro, estão esfaqueando-o que faço? – Caim caim… Me escondo? Me protejo? – Caim, caim… Mas que dona sou eu, não vou socorrer meu Mike? – Caim, caim… Dane-se: eu vou enfrentar o psicopata assassino de cachorros indefesos. Abro a porta dos fundos temerosa, mas ciente do meu dever de dona de um cão inofensivo. Lá estava ele, assustado, ainda ganindo de dor.

Passei a mão em seus pelos, nenhum corte, nada de sangue. Mas ele não tinha forças pra pular, estava com as quatro patas como que chumbadas no chão, tremia e tremia. A pupila de seus olhos estavam dilatadas, seus pelos arrepiados e ainda tremia e tremia. Lógico que eu procurava no quintal algum movimento estranho, alguma sombra. Mas nada vi, me enchi de coragem, acendi a luz, procurei em cada canto do quintal e nada. Teria ele visto algum espectro, um fantasma? Pensei no poder da mente. Como a mente é poderosa e cria situações. Então, certa de que ele estava bem, tranquei a porta e voltei para o filme.

Mas desta vez não prestei atenção ao filme e sim no movimento lá fora.

Ouvi o Mike se fartando de água, bebendo muita água e mais e mais. De repente, um ganido ensurdecedor. Não me contive abri a porta rapidamente e deu tempo de ver que o fio de extensão que ligava a máquina de lavar à tomada de 220v balançava freneticamente. Olhei o Mike e notei que novamente ele se encontrava com os pelos eriçados, as pupilas dilatadas, tremia e tremia e não tinha forças pra pular. E novamente parecia chumbado ao chão e com as pernas trêmulas. Foi quando entendi que ele, após beber água, resolveu brincar com o fio da extensão onde estava pendurada a tomada da máquina. Estava fora do alcance dele, mas se ficasse em duas patas e esticasse o pescoço para apanhá-lo conseguiria. E foi isso provavelmente o que aconteceu.

Cheguei à conclusão de que tinha um cachorro elétrico no lugar de um psicopata assassino. Pior para ele, o Mike, melhor pra mim. Ufa! Será que não se pode mais assistir um filminho sossegada nessa casa?

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *