Autor convidado

O BRASIL TÁ LASCADO!

Gilberto José Nogueira Junior, o Gil do Vigor, foi um dos participantes do BBB 21, reality show promovido pela rede Globo. Além de semifinalista do programa, Gil é economista, doutorando pela Universidade Federal de Pernambuco e futuro PHD em Economia pela Universidade da Califórnia. É dele a expressão que intitula esse artigo, a qual, repetida por ele durante a edição, se tornou um dos principais memes do programa e, brincadeiras à parte, reflete bem o momento econômico que vivemos.

Em meio a segunda onda de uma pandemia sem precedentes, o Brasil e, principalmente o brasileiro, estão de fato “lascados”. Eu explico: quando olhamos para a instituição “Brasil”, nos deparamos com uma dívida pública crescente e quase incontrolável (perto de 90% do PIB), uma perspectiva de inflação em forte elevação (décadas passadas já nos mostraram o quanto isso pode ser devastador) e todos os setores da Economia sangrando por conta das restrições impostas em virtude do coronavírus, em especial o setor de serviços, cuja recuperação parece ser a mais dolorosa perante os demais.

Do mesmo modo, ao lançarmos nosso olhar na direção do brasileiro, visualizamos uma taxa de desemprego atingindo 14% da população, reduções salariais e de jornada de trabalho que mudam a dinâmica econômica das famílias e uma lentidão vergonhosa do poder público na busca por mitigar os efeitos da covid-19, resultando em vacinas escassas e perda de entes queridos aos montes.  

Para se ter uma ideia do impacto desse cenário na vida do brasileiro, decidi avaliar seu comportamento de busca no Google nos últimos meses. Os números assustam, mas não surpreendem. A busca pelo termo “Unidade de Terapia Intensiva” em março de 2021 foi 15 vezes maior que média histórica medida desde 2004 pelo Google Trends. Da mesma forma, os termos “desemprego” e “seguro-desemprego” foram buscados quatro vezes mais nos primeiros meses de 2021 do que a média dos últimos 15 anos.

Diante disso, é nítido que algumas medidas precisavam ser tomadas e, no âmbito econômico, o adjetivo cunhado por Gil do Vigor se aplica bem ao Banco Central e ao Ministério da Economia. O dilema de ambos passava (e ainda passa) por decidir como manter a inflação dentro da meta, ao mesmo tempo em que o quadro geral demandava mais estímulos ao consumo para que a roda continuasse girando nos principais setores. E todos nós sabemos que consumo e inflação nem sempre estão do mesmo lado.  

Tal qual em uma votação de paredão do BBB, o Banco Central, por meio do Comitê de Política Monetária (Copom), deveria votar e decidir: subir a taxa básica de juros e, com isso, desestimular o consumo e os investimentos em um momento em que o país mais precisava de estímulos, ou esperar, manter a taxa na casa dos 2% e deixar a inflação mais “solta”, o que a médio prazo poderia gerar uma crise ainda pior.  

A decisão tomada foi a primeira. Após reunião do Copom, no dia 17 de março, a taxa Selic subiu 0,75% e a medida se repetiu na reunião seguinte, realizada nos dias 4 e 5 de maio, com mais 0,75% de aumento, mostrando uma direção clara de que essa será a toada daqui em diante.

Embora essa pareça ter sido a decisão certa, os efeitos preocupam. A começar pela já citada dívida pública, que por ser em grande parte indexada pela Selic, ficará mais cara e ainda mais incontrolável com o aumento da taxa. Sem falar nos efeitos ligados ao crédito mais caro que, para as empresas, inibe investimentos e reduz o ritmo de retomada e, para a população, reduz o poder de compra.  

Esse círculo vicioso prejudica todos os setores econômicos, incluindo a indústria e comércio de bens (ainda que mais beneficiados por políticas de incentivo fiscal e preservação do emprego) e, principalmente, o setor de serviços mais dependente da presença do consumidor, como é o caso do varejo presencial, do turismo, bares e restaurantes, entre outras atividades.

Enquanto isso, no cenário internacional, a tendência é de estímulo total à retomada do crescimento. Nos EUA, além das constantes ingestões de trilhões de dólares na economia, Jerome Powell, presidente do FED, promete que, ao contrário do Brasil, a subida de juros, hoje perto de zero, só começará em setembro de 2023 e mantém a previsão de inflação na casa dos 2%. O mercado, no entanto, segue desconfiado e a volatilidade do dólar e dos ativos de renda variável botam ainda mais fogo no ambiente tupiniquim.

Todos esses ingredientes misturados fazem com que as chances de instabilidade sejam maiores que o jogo da discórdia do BBB, tão famoso por desestabilizar os participantes nas noites de segunda-feira e nos mostram um cenário de absoluta incerteza, exatamente como em um primeiro dia de Big Brother Brasil, onde ninguém sabe ainda qual rumo o confinamento irá tomar, quem será beneficiado, quem será cancelado e, claro, quem ficará milionário no final.

A diferença é que no BBB, mudamos e mexemos com a vida de 20 participantes que serão lembrados, no máximo, pelos próximos oito meses, até o início da nova edição. Já no Brasil, esse número de vidas é multiplicado por, pelo menos, 10 milhões e os efeitos de cada decisão poderão significar décadas de estagnação ou de abundância.

Uma coisa é certa, nessa incomparável comparação entre o Brasil e o Big Brother Brasil, só há uma coisa igualmente soberana e capaz de decidir o futuro nos dois ambientes: o voto. Só peço a Deus que a gente possa estudar e se engajar nas próximas eleições com o mesmo afinco e entusiasmo com que fazemos isso a cada edição do reality mais famoso das Américas.

Autor: Ton Santos
Sonhador, publicitário, empreendedor e aspirante a jardineiro. Pai da Maria Carol e apaixonado pela mãe dela, a Andréa. Fundador das Agências Newton e Darwin, das quais se orgulha muito por poder juntar nela pessoas do bem para atender clientes do bem.
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