Ricardo Maruo

ENTREI NO GRUPO DE EX ALUNOS DO COLÉGIO. E FOI BIZARRO.

O ano começou e me propus a fazer um experimento sociológico que nenhum comitê de ética iria aprovar. Afinal, esse experimento pode dar muito errado ou muito certo. 

A ideia é frequentar um pequeno grupo de pessoas que já se conhecem mas que não possuem uma relação íntima no dia a dia, catalogar as respostas e analisar o que pensam a respeito da pandemia, da ciência, religião, política e, principalmente, questões sociais sobre racismo, homofobia e desigualdade social. Para reduzir o viés da espontaneidade não serão feitas perguntas específicas, os estímulos virão dos conteúdos publicados. Com esse experimento eu espero que cada publicação sobre esses assuntos tenham algum tipo de resposta. Serão oito publicações específicas sobre cada um dos temas. 

Enfim, explicada uma parte da metodologia, vamos ao que interessa. 

A história começa no ano passado.

Desde outubro de 2020 me chamam para entrar no grupo “Ex-Alunos do 3º E”. A princípio fui contra, pois não existe nenhum vínculo entre quem somos hoje e quem éramos na adolescência. Mas, após muita insistência, pensei que poderia ser interessante se pudesse traçar um paralelo sociológico de como pensam os atuais homens de meia idade e correlacionar com dados de outras pesquisas.

Entrei no grupo e, se tudo der certo, devo ter os dados coletados e analisados até o fim de 2021. 

O grupo foi criado no dia 13 de janeiro e este texto está sendo escrito no dia 08 de fevereiro. Em menos de um mês já presenciei 135 piadas homofóbicas e 278 atitudes machistas objetificando a mulher. Isso porque eu ainda não publiquei nenhum conteúdo do projeto.

No grupo temos nove homens de meia idade. Dois advogados, três engenheiros, um motorista de Uber, um corretor de imóveis, um músico e eu. O fato que mais me impressionou aconteceu com um conteúdo de fotos íntimas de uma mulher desconhecida. Alertei que essa atitude pode ser considerada crime, segundo a Lei  13.718/2018, e que era melhor rever os conteúdos a serem postados no grupo. Até sugeri criar alguns critérios para não entrarmos no âmbito criminal, mas fui bem criticado. A justificativa foi que homens sempre fizeram isso e continuarão fazendo e não temos que ficar de mimimi. Afinal, se a mulher se deixou filmar é porque ela queria e sabia das consequências. Tentei fazer uma analogia se a situação acontecesse com as filhas deles, afinal todos eles já são pais. A resposta que obtive foi que suas filhas nunca fariam uma coisa dessas, pois elas têm uma “boa educação”. 

Aqui entra minha primeira impressão sobre os homens de meia idade deste grupo (que pode ser um mini retrato de muitos homens da sociedade). O raciocínio que prevalece é de que existe um modelo de homem a ser seguido, que fala, principalmente, sobre mulheres, bebidas, futebol e churrasco. Todos esses temas envolvem, de alguma forma, uma tensão sexual escondida. Quando abordam temas como mulheres e bebidas existe uma busca gigantesca por afirmação deste modelo de homem viril. Quando o assunto é futebol ou churrasco o contexto sempre acaba com provocações e “brincadeiras” homofóbicas. Este grupo foi reunido com o objetivo de relembrar momentos divertidos do passado, porém quase todos os momentos que relembramos possuem essa busca por afirmação do modelo masculino ideal e essa tensão sexual escondida.

O que vi até agora confirma o título desse texto. Mas também, pode servir mesmo como um experimento que comprove o que já sabemos, mesmo não querendo acreditar: o quanto a sociedade é machista e homofóbica.

Se tudo der certo, publicarei aqui o resultado dessa experiência. 

1 thought on “ENTREI NO GRUPO DE EX ALUNOS DO COLÉGIO. E FOI BIZARRO.”

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *