Autor convidado

1968, O ANO QUE NÃO ACABOU…

Ao ler o artigo “Afrodite perdeu o rumo”, publicado neste blog, de autoria do jornalista e diretor da Área, Emílio Alonso, em que ele conta sua experiência quando ainda jovem, ao final dos anos 70 e início dos 80, junto com uma trupe de outros jovens libertários, que editavam mensalmente um fanzine que tratava de política, racismo, questões indígenas e outros temas, que, como bem diz Emílio, continuam absolutamente atuais, além de concluir afirmando que pouco mudou em mais de 40 anos, fui levado, por semelhança de fatos, a uma viagem retrospectiva também à minha juventude, porém uma década antes.

No ano de 1968, eu e outros jovens estudantes, no auge dos movimentos estudantis, fazíamos aos sábados um programa de rádio na extinta Rádio Marconi, chamado Manifesto, em que abordávamos temas como cultura, poesia, teatro e política, recheado com uma trilha de música popular brasileira, de Chico Buarque, Geraldo Vandré, Elis e outros.

Como Emílio e sua trupe, pensávamos em contribuir para a mudança da ditadura, então com quatro anos, para a democracia. Também nossa experiência teve vida curta, em 13 de dezembro de 1968 o governo do General Costa e Silva baixava o Ato Institucional nº 5, o AI 5, que vigorou até dezembro de 1978, criando um poder de exceção, que dava ao governo o poder de punir os que fossem considerados contrários ao regime. Nosso programa terminou ali.

O ano de 1968, “o ano que não acabou”, ficou marcado pela contestação dos jovens no mundo todo e no Brasil, contra a política tradicional e na busca de novas liberdades. Tudo isto soa muito atual: comunistas, esquerda, extrema direita, governo autoritário e, após meio século de história, parece que nada mudou. E por quê?

Talvez a resposta esteja dentro de cada um de nós. Em nossos instintos. Thorstein Bunde Veblen, um economista americano, em sua obra “A Teoria da Classe Ociosa” aborda o desejo de algumas pessoas serem reconhecidas como melhores que outros indivíduos. Aqui temos, por exemplo, o “instinto para a competitividade” inerente ao ser humano e que se contrapõe a outro, o “instinto fabril”. Se este nos predispõe a realizarmos tarefas necessárias à nossa sobrevivência social, com cooperação, buscando cumpri-las de forma bem feita, com estética até, já no “instinto para a competitividade” não há o interesse social, só aquilo que interessa ao indivíduo. Nele o comportamento é competitivo. Por ele se busca subjugar uns aos outros, demonstrar superioridade, acumular bens para além das necessidades básicas, ostentar. Se, como sabemos, a produção é necessária para a sobrevivência da humanidade, aí temos o nascimento da exploração da mão de obra, quer pela escravidão, como em outras épocas ou pelo trabalho assalariado modernamente, criando a relação capital x trabalho.

A humanidade não teria sobrevivido se apenas o instinto competitivo tivesse prevalecido, foi o instinto da cooperação, do prazer em trabalhar para a produção dos bens necessários para nossa sobrevivência social, que nos faz ter a esperança da mudança política. Saber de que lado estamos e qual desses dois instintos devemos cultivar é tarefa permanente da história humana.

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