Celia Araújo

TÁ RINDO DO QUE?

Minha mãe pode ter seus defeitos. Como todas as mães. Pode ser pegajosa, como a maioria. Pode te deixar em situação desconfortável, ajeitando seu cabelo em público, arrumando a gola da sua blusa ou tentado cortar uma linha que está pendurada em sua roupa. Você fica com aquela cara de boba dizendo: – Pára mãe, deixa, estão olhando….

Ela responde: – Deixem que olhem. Eu sou sua mãe e daí!

É assim que as mães pensam. Pelo menos a maior parte delas. Você não é filho ou filha: é propriedade. E se pudesse ela lhe colocaria uma placa: pertence à Da. Fulana de tal. No meu caso: à Da. Lindaura Araújo. E vai discutir com ela, vai? Duvido. Como ela mesma diz: Duvideodó!

Minha mãe, como eu estava dizendo, pode ser tudo isso, mas as melhores risadas que eu já dei na minha vida foram graças às situações geradas por ela.

Sempre me identifiquei com o filme do Woody Allen, quando um personagem, interpretado pelo mesmo, era totalmente controlado pela mãe. Ela ditava a roupa com que ele tinha que sair, ajeitava-lhe a gravata. Fazia recomendações a torto e a direito e olha que o personagem já tinha seus 50 anos. E o pior: escancarava o problema dele pra todo mundo. Ai! Era a minha mãe inteirinha. Ela vinha com aquela papinho: – Filha, confie em mim, eu sou a sua melhor amiga, pode me contar. No dia seguinte: a rua, o bairro, São Paulo inteira. o Jornal Nacional estava anunciando tudo. Que raiva! Que ódio! A sensação era muito ruim. Hoje as pessoas chamam de mico. Principalmente quando você ouvia da vizinha mais fofoqueira da rua:

– Aí, hem! Tá indo fazer as pazes com o namorado?

Vai catar coquinho. (Era o que dava vontade de responder). Voltando ao filme do Woody Allen. A mãe dele era tão indiscreta, tão controladora, tão inconveniente que. devido a um fenômeno astronômico inexplicável, a mãe dele apareceu no céu. E não saiu mais de lá. Era uma cara enorme no céu, como se fosse um satélite natural. Mas ao contrário da lua e do sol, ela ficava lá vinte e quatro horas, observando a vida do filho e desabafando com todos sobre os problemas dele. Era minha mãe inteirinha. Uma vez saímos eu, minha mãe e minha irmã. Era julho, fazia um frio de rachar, como diziam os mais velhos. Ela tirou o casaco do guarda roupa, colocou em cima da cama. Vestiu uma malha azul e depois vestiu por cima seu casaco de lã também azul.

Fomos visitar o comércio da avenida. Estranhamos imensamente, porque todas as pessoas que passavam por nós, olhavam para trás e se esbaldavam de rir. Algumas até apontavam. E a gente com aquele ar de: o que está acontecendo? Olhamos cada uma para a nossa roupa pra ver se não estava manchada, parecia que tudo estava certo.

Depois entramos na farmácia, as três e, ao sairmos, o pessoal até se debruçava sobre o balcão de tanto rir. Mas todos riam tão gostosamente que a gente até ria junto. Sei lá, parecíamos as três patetas. Depois de muito andar, fomos visitar uma amiga da minha mãe. E ao adentrarmos a casa ela perguntou: – Lindaura, me fala uma coisa, aonde você vai com esse cabide pendurado nas costas. Era isso mesmo, agora vimos, minha mãe estava com um cabide imenso pendurado na gola do casaco, na parte de trás. Era daqueles cabides antigos, pesados, de madeira, totalmente chamativo.
Nem eu, nem minha irmã tínhamos visto, porque a gente andava lado a lado. Nós rimos tanto, mas rimos, rimos, rimos e quase morremos de tanto rir.

O pior foi voltar de novo pelo mesmo caminho com o cabide na mão. E todo mundo olhando pra gente.

Ninguém nem pensou em colocar o bendito numa sacola pra disfarçar. Minha mãe ficou conhecida no bairro como a mulher do cabide. Pode?

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