Rachel Crescenti

BOIADA SEM NOME PASSA FÁCIL

Para que serve um nome? Para nomear. É o óbvio. Mas, aparentemente, vivemos tempos em que, para muitos, isso ainda não está tão claro ou não convém. Sendo assim, não espere que medíocres e mal-intencionados deem nome aos bois. 

Uma pena, porque nomes aos bois são fofos. Necessários. Nomes aos bois são garantidos e até caprichosos. Definem lados. Dão símbolo e cor a cada lugar de fala. Dar nome aos bois diz de onde viemos e onde estamos no mundo. Individualizam e nos destacam da boiada. 

Foi dando nomes aos bois que chegamos até aqui, tanto no sentido evolutivo quanto no restrito. Foi criando vocábulos e interjeições para designar animais, coisas e pessoas que o homem aprendeu a falar e tomou consciência do mundo que o rodeia. 

É bem verdade que, em vista do que temos ouvido atualmente, talvez a mãe natureza pudesse ter poupado alguns da capacidade de verbalizar certas coisas e, consequentemente, de ouvirmos alguns disparates. Mas seria injusto exigir exceção na seleção. 

A verdade é que, foi dando nome às coisas que as coisas passaram a existir. Sociologicamente falando, ainda que um enorme animal com grande chifres mugisse à nossa frente, ele não seria nada para nós se não pudéssemos chamá-lo de boi. Seria um algo que, por não estar nomeado, não poderia ser compreendido, percebido, racionalizado e integrado ao nosso universo. Daí a importância de poder dar nome aos bois. Para que pudessem existir. 

Foi designando nomes e materializando-os por meio de signos que caminhamos. A habilidade de denominar oralmente precisou ser seguida pela de escrever, para que ambas pudessem perpetuar os nomes dados.  

Não foi escrevendo nas cavernas que o homem primata se esquivou de seu predador. Foi gritando mesmo. A brincadeira rupestre foi só o registro do berro que alertou alguém e o impediu de ser comido. Esta eficiência incrível, que salvou a vida do homem primitivo desavisado, não tardou muito a ser percebida. 

E, logo em seguida, não foi subindo em montanhas e púlpitos e discorrendo sermões apenas oralmente que a dita vontade divina controlou o ímpeto terreno por séculos. Ela também lançou mão da palavra escrita, em letras miúdas para dificultar a leitura, lógico. 

E uma boiada que não sabia seu nome e nem o nome das coisas passou a percorrer pacificamente os caminhos que levaram ao tamanho de Roma, ao feudalismo e à exploração do homem pelo homem. Caminhou atendendo apenas ao chamado dos nomes que lhes impuseram por batismo. Nomes sem significados. 

Soubessem eles os nomes reais de cada coisa, talvez não tivessem andado a passadas largas e, por vontade própria, para o abatedouro da vida moderna. 

Claro que poderiam, por exemplo, ter consultado o pai dos burros antes de desencadearem o comportamento de manada sem denominar cada coisa com o nome que ela de fato tem. Os burros não teriam se importado. Mas na época haviam dado ao nome burro uma péssima conotação. Estavam desacreditados, coitados. Na verdade seguem agora também conhecidos como asnos e mulas e com a credibilidade  empacada. 

O fato é que nomes são muito importantes. São designadores de um conceito universal. Basta dizer “boi” e já vem à mente de qualquer pessoa a imagem de um incrível espécime bovino. Para alguns ele pode ser malhado, para outros todo branco, pode ter chifres ou ser mocho. O fato é que, quando dizemos boi em um boi pensamos. E isso é tão fantástico que, se uma pessoa, por sagacidade ou mau-caratismo, não quiser que a outra pense em um boi, ela diz “animal mamífero artiodáctilo, ruminante, do gênero Bos, da família dos bovídeos, provido de cornos ocos”.  De forma muito eficiente, e com o objetivo de impedir a compreensão imediata, usa-se a preguiça como arma secreta. 

Lógico que, se a ideia for impedir esta compreensão via internet, as más práticas da comunicação em mídias digitais sugerem digitar algo sutil como “bovino” ou “zebuíno”, ou ainda, com 100% de chance de compartilhamento e 0% de compreensão: “#garrote” ou “@novilho”. 

Por isso, dito ou escrito, o nome correto vale o quanto pesa. E é preciso que ele pese corretamente. Ortograficamente bem aferido para não ferir a realidade dos fatos. 

Mesmo que os nomes doam ao serem ouvidos. Mesmo que sejam denominações recentes. É melhor que nos choquem do que nos ludibriem. Melhor que pareçam gritos em nossos ouvidos com seus significados, do que minimizem fatos e nos aprisionem em uma realidade nada virtual. 

Nomes são signos cujos significados são fundamentais. São imagens acústicas e representações gráficas daquilo que precisamos saber para sobreviver e viver com verdade. 

E “mentira” é o substantivo que dá nome ao contrário de “verdade”. 

“Mentiroso” é o adjetivo certo para designar quem mente. É a palavra justa para nomear quem discursa oralmente uma fileira de inverdades e para citar nas manchetes que a imprensa deveria publicar sobre quem mente. E aqui a palavra certa é “covardia” ou “interesse”. 

“Mentirosos” é o plural para denominar quem concorda com um mentiroso.

E, infelizmente “mentir” é verbo recorrente que pode ser empregado para quem mente para si mesmo e para os outros, para esconder a própria ignorância ou a falta de caráter. 

Portanto, é preciso seguir dando nome aos bois. É preciso denominar como “mentiroso”, quem mente. É preciso ser preciso para evitar o desastre total que é o estouro de uma boiada inominável.

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