Silene Santos

AO PASSADO

Querido passado, escrevemos-te essas mal traçadas linhas para saber de você, saber por onde andas e pra te fazer um pedido. Sabemos que você não para nunca, que a cada segundo se deixa ficar humildemente pra trás, mas sempre fincando suas marcas, tanto no presente quanto no futuro. Você é que é esperto!

Temos sentido sua falta, sabe? De quando ainda podíamos nos amontoar nas feiras-livres, supermercados e enfrentar longas filas pra resolver problemas e meios de transporte lotados pra ir e vir, todos coladinhos uns aos outros. Ah… que saudades de ti. Reclamações sempre vão existir com relação a essas condições, mas reclamar é da natureza humana, né? Há uma frase bem desgastada, muito usada de tempos em tempos, mas que cabe muito bem para a atualidade: “éramos felizes e não sabíamos”.

O que queremos é ter de volta a permissão para nos abraçar e nos beijar. Aqui no Hemisfério Sul, latinos que somos, de sangue “caliente”, o que gostamos mesmo é de estar juntos, fazer almoços regados a samba, MPB, axé e o que mais vier; de promover encontros e de visitar amigos. E esse negócio de encontrar as pessoas e não poder apertar a mão, de não poder dar um abraço aconchegante no amigo, não está dando certo. É disso que estamos falando!

Os otimistas dizem que tudo na vida tem um lado bom. E não é que tem mesmo? Pra conter a transmissão desse vírus o mais aconselhável é que as pessoas se mantenham em casa, em confinamento. Com isso as famílias agora têm que ficar juntas, pais e filhos e, em muitos casos, os avós. E é um tal de quem faz o quê em relação aos afazeres domésticos. Todo mundo junto e todos ajudando em tudo, às vezes dá confusão… rs. Estranho, né? Isso tem sido bom, mostra-nos que foi preciso um vírus mortal pra acender a luz da necessidade do convívio familiar.

E não é que a poluição diminuiu e parece que as águas dos mares e dos rios estão mais limpas. Aquele trânsito insano acalmou, as pessoas estão telefonando mais umas pras outras pra saber como estão. Isso tudo tem nos deixado mais preocupados uns com os outros. É solidariedade que chama, né?

A doença tem nos tirado preciosas vidas em todo o mundo, é lamentável e isso nos cala fundo. Mas tem nos ensinado algumas coisas: sermos mais limpos, por exemplo. É. Temos que admitir! Se ao lavar pouco as mãos a transmissão do vírus é maior, então se aumentar a contaminação é porque não estamos fazendo a higiene corretamente.

Em todo planeta a ordem é: para conter a disseminação da doença é necessário se manter em quarentena, lavar muito bem as mãos e também manter a casa limpíssima. Parece chover no molhado, mas essa é a realidade, meu querido!

Sabe, ultimamente tem acontecido uns fenômenos incríveis no céu? Em algumas tardes deste abril ele tem ficado colorido, com predominância da cor rosa. Será que já era assim e ninguém percebeu? Não pode ser. Ou será que é Deus que, em sua infinita misericórdia, está nos presenteando com um pouco de beleza e cor nesses dias tão tristes? Só pode ser Deus. Deus é assim: vê seus filhos cabisbaixos e trata logo de alegrar seus espíritos com coisas que realmente importam.

Mas antes de voltar, querido passado, converse com o futuro, pede pra ele nos adiantar a primavera. No presente, apesar de algumas poucas tardes coloridas, quem domina é um outono cinza muito sombrio. Pede a primavera em nosso nome. Pelo menos pra dar um alento aos espíritos mais sensíveis. Eles se alegram ao verem as flores que brotam da terra, dos galhos baixos e das copas das árvores. Elas fazem florescer suas almas. E pede para os espíritos mais duros também. Não é possível que não se dobrem à delicadeza de um ipê amarelo em flor.

Isso tudo que te contamos é só pra dizer da falta que você nos faz e pra pedir que você volte um pouquinho, por favor. Volta, vai? Vamos vivê-lo  de forma diferente. Você vai ser construído com muito mais convívio familiar, com muito valor à vida e cuidado com o outro, cuidado com os animais e com as plantas. Essas coisas de gente, sabe?

E como gente é movida à esperança, perseverança e resiliência, finalizamos com um trecho do poema “Aninha e suas pedras”, da poetisa Cora Coralina:

“Recria tua vida sempre, sempre

Remove pedras e planta roseiras e faz doces.

Recomeça.”

Um forte abraço. Em você pode!

Aguardamos resposta, não demore. Temos urgência!

Assinado: habitantes do planeta Terra

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