Celia Araújo

REZAR?

Diante de semanas corridas, muito trabalho na agência, chegando sempre tarde da noite em casa, não tinha tempo para programar meus finais de semana. Dormia até muito tarde e ficava esparramada no sofá vendo TV sem nenhuma programação.

E quando eu via o dia já tinha passado e o final de semana perdido.

Naquele sábado a que tudo indicava não ia ser diferente.

Eu não tinha nenhum convite pra festa e muito menos de uma paquera pra sair, determinei: vou fazer um programa esplêndido e inesquecível neste sábado.

Assistindo a um telejornal da tarde que cobria uma feira da idade média. Eu ia arregalando os olhos à medida que o repórter anunciava: aqui vocês vão poder assistir lutas de espada entre cavaleiros medievais, comer sanduíche com carne de javali, participar de um baile real, dançar com bruxas em torno de seus caldeirões, etecetera, etecetera e etecetera… Pensei: – Tô dentro! Mas não ouvi o endereço.

Só que a feira acontecia naquele dia na Mooca. Entrei no site do telejornal e nada a respeito. Pensei: vou arriscar. Conheço a Moóca como a palma da minha mão. Era inverno e tentei caprichar no visual. Calcei minhas botas novas, arrumei o cabelo e fiz uma leve maquiagem. E sai esfuziante.

Conferi o visual no espelho do elevador: aprovadíssimo!

Entrei no carro e parti pra mais uma aventura que poderia ser uma das mais importantes da minha vida. Já fui determinada a procurar pela avenida principal do bairro: a Paes de Barros, depois nas travessas, em seguida procurar pelas paralelas e adjacentes, onde fosse. Estava tudo assim meio morto.

Mas não desisti. Rodei, rodei, rodei com o carro por cerca de uma hora, procurando o lugar e nada. Pensei, vou perguntar pra alguém. Quando, finalmente perto de uma igreja, notei que havia um ponto de táxi com uns cinco carros mais ou menos e os respectivos motoristas em uma roda de conversa aguardando seus clientes.

Cumprimentei-os, toda esperançosa, emendei com a pergunta:
– Vocês sabem onde posso encontrar uma feira medieval que vi numa reportagem do jornal da tarde? E expliquei: Eles falaram que haveria cavaleiros com armaduras, sanduíche com carne de javali e bruxas fazendo feitiçaria em seus caldeirões. E aguardando ansiosa a resposta para chegar logo ao meu destino, ouvi surpresa o que um dos senhores falou enfaticamente:
– Minha senhora, vai rezar!

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