Rachel Crescenti

QUE COLOQUE LENHA NA FOGUEIRA QUEM JÁ TEM SEGURO FUNERAL

Do pó viemos e para o pó voltaremos.

É o que Deus teria dito a Adão quando soube que ele e Eva não haviam conseguido resistir ao fruto proibido. Total sentido para ele, que havia sido modelado da argila e recebido o sopro divino da criação. Para ela nem tanto, afinal, Eva não veio da argila e nem do pó. Ao que parece ela nasceu de uma costela de Adão e, portanto, a advertência divina, no sentido restrito da frase a ela não se aplica.

É bom que lembremos aqui que argila é terra molhada. E terra é o pó mineral que reveste uma grande parte da Terra, ainda que não a maior, já que 70% da superfície terrestre é aquática, por assim dizer. Uma ironia semântica independente de sua crença. Em Deus? Não. No formato da terra. Enfim, seja a Terra redonda ou plana, o fato é que há mais líquido do que pó. E, de acordo com a sua crença, e aqui sim estamos falando dele, que tenho certeza teria coisas mais importantes para se preocupar do que com a grafia do pronome em minúscula, é para uma terra representativamente minoritária que voltaremos.

Todos nós. Talvez menos a Eva, que nasceu da Costela de Adão, termo que também dá nome a uma planta latina de folhas gigantes e picotadas com visual bem adequado às florestas tropicais. No rigor da nossa língua, um legítimo exemplar da família Araceae.

Enfim, a natureza é assim mesmo, um emaranhado de coisas todas juntas. Onde há terra e água há sempre condições apropriadas para nascer e crescer uma bela arácea.

O problema é que, quando cortamos essa conexão com a natureza, ficamos sem ter para onde ir. Se da terra viemos, precisaremos de terra para voltar um dia. É o paradigma da humanidade. Somos dependentes do meio que nos cerca do início ao fim.

Pertencemos ao ambiente e ele nos forma. Por isso, não faz nenhum sentido colocar lenha na fogueira para ver a natureza pegar fogo. Se floresta arde a preservação urge. Não importa se você descende do pecado original de Deus ou da seleção natural de Darwin. Resumindo, a Amazônia em chamas aos olhos do outro não é refresco. É burrice. Afinal, se a floresta morrer não teremos nem onde cair morto.

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