Ricardo Maruo

O DIA A DIA DO MACHISMO ESTRUTURAL

Adriana acordou e nem imaginava que seu dia seria repleto de entrevistas. Longas entrevistas.

Chegando ao trabalho, seus colegas já avisaram. “Se prepara que a Globo tá vindo aí. Eles querem falar contigo sobre o caso da paisagista que foi espancada. E tem mais um monte de repórteres te ligando”. Adriana fechou os olhos, deu uma longa respirada e pensou. “Que venham. É importante falar sobre o assunto”.

Algumas horas depois, a 16º DP estava lotada de repórteres para noticiar que o agressor havia sido indiciado por tentativa de feminicídio. As provas que Adriana e sua equipe juntaram comprovavam que o crime não havia sido motivado por um possível surto psicótico. Para ela o crime foi premeditado e ocorreu por vingança.

Ao todo, Adriana deu 12 entrevistas só naquele dia. Fez questão de ressaltar, em todas elas, que feminicídio é um crime hediondo segundo a Lei nº 13.104, com pena de 12 a 30 anos de prisão. E mesmo que Adriana saiba que o Brasil é o quinto País do mundo que mais assassina mulheres, e mesmo que conviva, todos os dias, com realidades semelhantes à da paisagista, mesmo que saiba que a violência contra as mulheres não possui classe social, credo ou mesmo escolaridade, mesmo assim, a delegada Adriana ainda se surpreende com o poder que a sociedade oferece aos homens. E o quanto esse poder é diabolicamente cruel. Desde que as investigações começaram Adriana já ouviu, de inúmeras pessoas, que a culpa era da paisagista, afinal mulher direita não convida homem estranho para sua casa.

Fim do dia, totalmente emocionada e extremamente esgotada por causa das entrevistas, Adriana se despede da sua equipe. Vai ao encontro de Vera, sua companheira. “Desculpa o atraso, amor. Hoje o dia não foi fácil”. “Tudo bem, meu amor. Eu imagino como deve ter sido pesado”. As duas se abraçam, trocam um selinho e sentam na mesa. Antes mesmo do garçom aparecer, Vera olha para Adriana e diz. “Dri, não olha agora, mas tem três caras na mesa de trás que estão fazendo uns gestos bem obscenos pra mim depois que viram a gente se beijar”. Adriana olha para companheira e chora. 

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