Ricardo Maruo

NOSSA PEQUENINA CAPACIDADE DE ENTENDER A NATUREZA

Aquele raio de Sol, vindo de uma pequena fresta na janela, fez André acordar irritado. – “É domingo, poxa. Quero dormir até mais tarde! Que merda de Sol é esse!?”, pensou enquanto levantava nervoso para fechar a cortina.

Voltando para cama não conseguiu mais dormir, seu edredom de poliéster havia caído no chão e seu travesseiro de espuma, produzido com tecnologia da NASA, estava no outro lado da cama. Ainda irritado, levantou e foi preparar seu café.

Na cozinha, jogou no lixo todas as capsulas que havia acumulado durante a semana e esvaziou completamente o compartimento da sua máquina de café. “Respira, André! Começa esse domingo bem. Sem estresse”, pensou enquanto sentia o aroma do café preparado na hora.

Mais calmo, pegou sua caneca, sentou no sofá e foi ver o que rolava nas redes sociais. Ficou espantado com a quantidade de amigos compartilhando a tragédia de Minas Gerais. Franziu a testa e disse: “Tenho que ajudar! Também vou compartilhar essas informações. Todas as pessoas precisam saber sobre esse descaso com o meio ambiente e também com toda população de lá”. Compartilhou uns quatro posts até que se lembrou. Hoje tem um churrasco na casa do Edu. Eba!

Muito mais feliz, preparou seu ritual para sair. Acessou sua playlist no Spotify e entrou no banho. Após 15 minutos, fechou a torneira, abriu o box e saiu cantarolando sob a fragrância de palmolive.

De frente ao armário não conseguiu escolher, entre as 20 camisetas, qual delas combinava melhor com sua bermuda nova. Pegou a de fibra de algodão pois era a mais arejada para um dia de calor.

Quase 13:20, André chega ao churrasco. Já pega uma caipirinha “com canudinho, por favor!” e cumprimenta todos os amigos. “Você viu a tragédia em Minas? Um descaso, né? Fico pensando em todo aquele estrago na natureza. Era um lugar tão lindo, passei por lá quando fui para Inhotim”.

Batendo as 15:00 Eduardo, dono da casa e amigo de André, avisa os convidados. “Gente, ainda tem muita salada de maionese, tem arroz e legumes. Come lá, gente. Senão vai estragar”. André pega uma porção pequena de maionese e quatro asinhas de frango.

No fim do dia, já cansado, André deita a cabeça em seu travesseiro anatômico, dá uma última olhada nas redes sociais e se prepara para uma nova jornada.

André passa mais um fim de semana sem saber o que é poliéster, como foi produzido seu travesseiro anatômico, para onde vão as capsulas de café que ele jogou no lixo, quantos litros de água são gastos em 15 minutos de banho, do que é feito o sabonete palmolive, a quantidade de agrotóxicos usados na produção das suas camisetas de algodão, os 500 anos que um simples canudo leva para se decompor, a quantidade de alimento que se perde em um simples churrasco e, acima de tudo. André passa mais um fim de semana sem saber que aquele raio de Sol, que o acordou neste domingo, era só mais um efeito da Natureza. E que aquele mesmo raio de Sol vai existir no dia seguinte independente se André estiver vivo ou morto.

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